Antes e Depois

1
Há o antes e o depois.
Antes, era capaz de tudo. Corria, saltava e levantava-me a cada queda. Mesmo pesada, grande, larga e sexagenária, tinha essa fibra: a de não querer ficar nunca para trás, a de ser capaz de fazer muito e bem.
Mas depois aconteceu.
O que parecia ser uma simples vertigem tornou-se num pesadelo.
O que o corpo humano tem de perfeição, tem também de complexidade.
Um dos nervos responsáveis por levar ao cérebro a informação do ouvido interno relacionada com o equilíbrio inflamou de forma aguda. É o nervo vestibular, parte do oitavo nervo craniano. O que aconteceu parecia simples, mas, na realidade, a minha cabeça ficou como que descoordenada do resto do corpo.
Naquela noite senti um cansaço enorme.
Acordei na madrugada do dia 28 de maio e, quando me sentei na cama, tudo começou a girar, como se estivesse num carrossel na Feira de Santa Iria, em Faro. Embora com muita dificuldade, consegui dirigir-me à casa de banho.
Quando voltei a mim, estava de barriga para baixo. Tinha um dente partido na boca e não conseguia pôr-me de pé.
Não sei quanto tempo fiquei ali.
Arrastei-me pelo chão até ao quarto, liguei para o INEM e depois para a minha vizinha amiga, que tem a chave da porta de entrada. Foi importante para que me pudessem socorrer.
Chegaram cerca de meia hora depois.
Ainda era noite.
O diagnóstico parecia óbvio: vertigens.
As urgências do Hospital de Faro têm fama de serem um caos.
E é verdade.
Depois da triagem, era urgente fazer uma ressonância ao cérebro. A suspeita era um AVC.
Não havia macas disponíveis. Os elementos do INEM tiveram de esperar algum tempo. Foram impecáveis.
Eventualmente, colocaram-me numa maca do hospital, estreita e curta. Os meus olhos não conseguiam parar.
O corredor estava repleto de macas, de pessoas a gemer e a gritar.
Pensei:
Morri e estou no inferno.
Senti uma forte vontade de urinar, mas não podia levantar-me. Deram-me duas opções: arrastadeira ou fralda.
Tentei a primeira, mas não consegui.
Colocaram-me uma fralda.
Horrível.
Estava rodeada de gente. A vergonha era profunda. Comecei a urinar gota a gota e cobri a cabeça com o lençol até terminar.
E, como se não bastasse, saiu-me um gás sonoro que mais parecia um morteiro.
Que vergonha.
Mijada. Ensopada.
Apareceram dois médicos e trouxeram um par de óculos de Frenzel.
Confirmaram.
Teria de ficar internada.
As horas pareciam meses.
Depois de algum tempo, empurraram a maca para o bunker. Estava repleto de gente, muitos homens.
O médico voltou.
Deu-me duas notícias.
A boa: não tinha tido um AVC.
A outra explicou-ma de uma forma simples, para que eu entendesse:
— O sensor do movimento pifou.
Foi mesmo assim que disse.
Tudo desabou.
Voltarei eu a andar?
2
Eu chamava bunker ao local chamado S.O.
Quem estava mal, estava ali. Quem estava internado, mas ainda não tinha quarto no piso, estava ali. E quem, possivelmente, não tinha ninguém, também estaria ali.
Mas havia outros que não chegavam a ir para lado nenhum.
Enfim, um lugar sombrio onde as paredes pareciam ter sido pintadas de uma cor chamada sofrimento.
Nunca tinha estado dependente de ninguém.
Chamava porque tinha a fralda molhada.
Chamava porque tinha fome.
Chamava porque tinha dores.
Chamava porque estava maldisposta.
Todos chamavam.
Quase trinta pessoas para duas auxiliares. Por vezes, apenas uma.
O médico voltou. Disse-me que tinha arranjado um quarto, porque eu não podia estar rodeada de tanto barulho. Mas a enfermeira respondeu que o médico devia saber que havia uma lista de espera para os quartos.
Eu disse-lhe que calculava e que não me estava a queixar.
Eu entendia.
Eles faziam o que podiam. Não faziam mais porque não podiam. É um facto.
E a comida...
Ai, meu Deus.
Sei que há muita gente que não tem nada. Quem sou eu para me queixar?
Mas até o médico me disse:
— Não coma isso.
Mas eu comia.
Pensava que tinha de sair dali. Tinha de ter força.
Era urgente sair dali.
Pensava:
Se não sair daqui o mais depressa possível, ainda apanho outra doença.
E apanhei.
Uma infeção urinária terrível.
Durante aqueles dias tive visitas.
A AA foi a primeira. Com ela é sempre assim. Foi incansável. É a irmã que não tive e comoveu-me com os seus gestos.
A AB também me visitou. Uma boa amiga.
A AC, amiga e patroa, ligava todos os dias. A AD também.
E a AE, sempre.
Quando os sintomas estabilizaram, o médico deu-me alta.
A minha patroa marcou-me uma consulta com um otorrinolaringologista, que me tem acompanhado desde então.
Mais tarde, comecei fisioterapia vestibular.
O fisioterapeuta vestibular tem sido essencial na minha recuperação.
3
Foi a AA que me ajudou na higiene. Entrar sozinha na banheira estava fora de questão.
Fazia-me as refeições ou trazia-mas já feitas.
Passei os dias do quarto para a sala, da sala para o quarto.
Elas vinham e iam.
Umas queridas.
Se não existissem, eu estaria numa instituição ou teria permanecido no hospital, como tantos outros.
Na primeira quinta-feira do mês de julho comecei a fisioterapia vestibular.
Era preciso reaprender a andar.
Primeiro no corredor. Depois na rua.
Os barulhos, os carros, as casas, as árvores a baloiçar, o som das motas, as sirenes das ambulâncias... tudo me fazia estremecer. A minha vontade era fugir.
A cada passo, a cabeça estremecia.
A sensação era de que o corpo estava num lugar e a cabeça não me pertencia.
O fisioterapeuta deu-me uma folha de exercícios para fazer em casa.
Fazia-os religiosamente.
A primeira aventura sozinha na rua foi ir deitar o lixo ao contentor.
Para conseguir andar, tinha de fixar o olhar em pontos concretos: um poste de iluminação, um sinal de trânsito, um pilar.
Um dia tentei ir ao supermercado, que fica relativamente perto de casa.
Foi traumático.
Das outras vezes fui acompanhada.
Ontem, segunda-feira, dia 17 de agosto, consegui ir ao centro de Almancil.
Dois agentes da autoridade ajudaram-me a atravessar a estrada na passadeira.
Esta manhã estou com a cabeça vazia e sinto-me maldisposta.
E é assim que passo os dias.
Mas estou feliz.
A pouco e pouco, estou a retomar a minha autonomia.
Já consigo ver televisão.
Já consigo ler.
E já consigo escrever.
Será que consigo voltar a trabalhar?






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